sábado, 14 de agosto de 2021

Márcia


 A porta abriu com um estrondo.

— Ô maninha! Já fez o café? — uma mulher de corpo avantajado e sardas pelo rosto gritou com sua voz estridente.

— Márcia, se você quer café, faça. Não sou sua empregada! — respondeu a jovem senhora sentada com óculos tortos devido ao sobressalto causado pelo barulho.

Era assim todas as manhãs, a grande senhora acordava perto do meio dia exigindo o café, enquanto Juliana já trabalhava desde às seis da manhã. As duas dividiam a casa herdada da mãe.

 Márcia nunca gostou de trabalhar, dependia da irmã para tudo. Não sabia cozinhar, limpar ou arrumar nada. 

Juliana, por ser mais velha, sempre compreendeu a irmã. A idade avançava, logo era comum que ela pensasse se isso era tudo. Somente viver em função de sua caçula.

Aquele dia foi um entre tantos que ela pensou em desistir de tudo e sumir. Trabalhava de freelancer com informática e também era professora de literatura, sempre sonhou em viver um grande amor como nos livros, porém  sentia que sua vida  era travada pela sua decepcionante irmã.

Fez o almoço, estendeu a roupa e passou aspirador na casa, sempre com a sombra de Márcia a aborrecendo em seu encalço. No fim da tarde, não aguentou mais. Pegou sua bolsa e foi em direção a biblioteca da cidade, antes que ela fechasse.

Ainda ouviu com desagrado a voz irritante que vinha do sofá . A última frase sempre era da sua irmã

— Vai sair? Traz um cachorro quente na volta. 

O sangue de Juliana fervia de tensão. Descobriria um jeito de acabar com aquela prisão de descontentamento.

Quando chegou no prédio da biblioteca, faltavam poucos minutos para fechar. Foi direto para a seção de literatura romântica, passeando entre prateleiras e esculturas com a irritação martelando em sua cabeça. Seria necessário uma mudança, não havia outra solução.

Absorvida por seus pensamentos, quase não notou uma luz brilhante saindo da estátua de um presidente que teve seu mandato na década de 60. A cintilação azulada chamou sua atenção, fazendo com que ela se aproximasse com cautela.

De frente para o monumento, a claridade era magnética. Juliana fitou os olhos de granito que eram a fonte do brilho mais forte.

— Ora, ora temos uma visitante ilustre, — a voz da estátua era metalizada como que saída de um microfone fanho — temos uma campeã.

A mulher coçou os olhos, imaginando se aquilo era uma alucinação.

O presidente prosseguiu:

— Eu sou apenas um autômato, não se preocupe. Trago uma mensagem para pessoas selecionadas, essa é a sua vez. Toque na flor da minha lapela.

Com a mão trêmula, ela tocou o local indicado. Um estalo suave ouviu-se da lateral da estátua. Juliana se abaixou, notando o dispositivo semelhante a um celular que saiu do monumento, parando no chão.

Com o artefato em mãos ela deslizou o dedo na tela. 


A Equipe Temp. te selecionou para obter o conhecimento que pode mudar  sua vida ou  talvez altere o destino da humanidade. Poucos têm acesso à essa informação.

 Daqui a duas horas ocorrerá a abertura de um vórtice temporal que permitirá ao portador desse intercomunicador regressar no tempo. 

Para aproveitar essa oportunidade será necessário estar nessas coordenadas (25°24'35.7"S 49°16'02.0"W). É importante ressaltar que os únicos anos que podem ser revisitados são os com intervalo de trinta e três anos a partir desta data e somente até 1922. 

Lembre-se: o que fizer no passado talvez altere todo o destino da humanidade. Bom passeio!


A professora refletiu sobre como aproveitaria aquele presente, ponderando se era realmente verdade. Seus passos seguiram para a seção de geografia, precisaria de um mapa.

Verificou as coordenadas e descobriu que a localização era o maior museu da cidade. 

O intercomunicador tinha um relógio em contagem regressiva. Este indicava que faltava uma hora e quarenta e cinco minutos para a abertura do vórtice.

Juliana arquitetou um plano focado em mudar a sua vida. 

Saindo da biblioteca, passou em duas lojas para obter o material necessário para a sua missão. Chegou no Museu com trinta minutos marcando a contagem do aparelho.

A magnífica construção possuía dezenas de salas. Ela caminhou por alguns minutos em seu espaço preferido. O recinto exibia quadros de um artista local, que representava o romantismo em suas obras.

Quando se deu conta, o marcador do cronômetro estava em cinco minutos. Deduziu que o local seria na sala dos antigos presidentes com base no autómato. A sala pequena estava vazia. Juliana viu o ar oscilar diante dela. 

O intercomunicador vibrou enquanto mostrava um indicador de data. 

A mulher colocou o dia escolhido em uma ânsia de acabar com seus problemas.

Um feixe de luz surgiu e seu corpo sentiu a atração da gravidade do vórtice.

No momento que abriu os olhos sentiu a mudança de temperatura, estava agora ao ar livre. Percebeu que o sol já se deitava no horizonte. Foi decidida em direção ao seu objetivo que ficava no hospital a cinco quadras dali.

O coração acelerado fazia o suor escorrer gelado pelas costas.

O tempo foi escasso no processo do planejamento, contudo seus conhecimentos de informática e photoshop vieram a calhar. Agora tinha em mãos seu passaporte para a missão, uma identidade falsificada. 

Ajeitou o cabelo, atravessando decidida as portas  do maior hospital-maternidade da cidade.

— Boa noite, gostaria de visitar a paciente do 320 — falou para a recepcionista que mascava um chiclete — ela deu entrada hoje por volta das quinze horas.

— Identidade, por favor? — a moça sequer ergueu os olhos.

A professora passou o documento na calça entregando para a atendente. Reparou que não havia computadores na mesa, somente fichários. 

— O horário de visitas acaba em trinta minutos — avisou a jovem, enquanto passava um crachá pela bancada — na saída o documento será devolvido.

Juliana ajeitou o crachá no peito ao andar pelo corredor. Chegando no elevador, apertou a tecla número três. Focava o pensamento em fazer tudo com a maior discrição.

Chegou no quarto 320 com facilidade, afinal o hospital não  mudara muito ao longo dos anos. Abriu a porta visualizando duas camas com as pacientes em repouso.

Observou que os bercinhos ao lado da cama estavam vazios. — mas claro, na década de 80 as crianças ficavam em berçários — disse baixinho para si mesma.

Alteraria o plano.

Foi até o térreo pelas escadas, chegando na lavanderia. Era a única opção, se passar por enfermeira. 

Já vestida com o uniforme, pegou outra vez o elevador, evitando qualquer posto de segurança. Visualizou um mapa de orientação, descobrindo que seu objetivo ficava no quinto andar.

Resoluta em transformar sua vida, andou com firmeza até a sala. No momento todos estavam fora, poderia agir com calma.

A porta abriu com um rangido. Dos vários bercinhos apenas quatro estavam ocupados. Um deles era menino, não adiantaria. O segundo bebê era uma menina linda de cabelos negros e pele cor de caramelo, essa também não daria.

Restavam apenas duas.

Eram semelhantes, somente as pulseirinhas nos pés que as diferenciavam. Ambas nascidas na tarde daquele dia, uma tinha o nome da mãe de Juliana escrito e a outra não.

Ela agiu com cuidado trocando as duas de berço, substituindo também as indicações com o nome das mães.

Terminara de devolver sua nova irmã quando ouviu o barulho da porta. Respirou fundo sorrindo.

— Os bebês estão dando trabalho hoje? — um segurança robusto indagou.

— Shhh acabaram de dormir — seu tom de voz tinha de ser profissional — vamos sair que estou atrasada para jantar.

— Tudo bem — o guarda respondeu, levantando as mãos e sorrindo.— só estava fazendo a ronda, geralmente nesse horário aqui está vazio.

— É, hoje me atrasei porque não queria deixar nenhuma criança chorando. — ela já caminhava até a porta.

O corredor da volta parecia mais longo com o guarda de companhia. Ela caminhou em direção às escadas, se livrando do homem que voltou para seu posto.

Andou o mais próximo possível da parede com urgência, trocou suas roupas, passou pela recepção pegando o documento de volta. Por fim, saiu pela porta que entrou.

Algo em seu bolso vibrou.

O intercomunicador começou a apitar em contagem regressiva mais uma vez quando Juliana estava quase em frente ao portal.

Chegou em casa tão exausta da aventura que dormiu no sofá.

Acordou com a luz que entrava pela cortina da sala. Respirou com alívio quando reparou que a mesa da cozinha estava como deixou no dia anterior.

Colocou a água no fogo e sentou para ler uma revista enquanto aguardava para tomar o café.

A porta bateu com estrondo.

— Ô maninha! Já fez o café? — a voz decepcionante gritava.


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