domingo, 3 de outubro de 2021

O Bosque - Desafio de Escrita

 Esse texto é a resposta do Desafio de escrita que está no ar lá no Instagram do Clube dos 7.



Todos os dias eram assim. Rita seguia às seis da manhã para o emprego na confeitaria da Bel. Era uma confeiteira de mãos cheias, organizada, dedicada e muito prestativa.

Trabalhava quase o dia todo em pé, chegava em casa cuidava das tarefas, jantar e higiene dos filhos. Com eles já dormindo, limpava a casa, lavava as roupas e ainda estudava novas receitas.

Depois, passava com cuidado as camisas do marido que de manhã levaria as crianças para escola e seguiria para o seu trabalho, na portaria de um prédio próximo ao estabelecimento que ela trabalhava 

Todos no bairro tinham grande admiração por essa mulher, ela porém, todas as noites repetia a mesma frase:

Deveria quebrar uma perna para ter um pouco de descanso.

O seu trabalho ficava ao lado de um parque que tinha um denso bosque. As crianças jogavam bola o dia todo na parte de grama.

Rita em seus breves minutos de pausa, ficava admirando os pequenos com a sua vivacidade. Brincavam como se não houvesse amanhã, não se preocupavam com nada.

Naquele dia em específico, Rita foi despertada da sua observação com um grito.

Lucasssss não, de novo não. Porque você sempre perde a bola no bosque. quem gritava era um menino mirrado com ar nervosinho.

Calma, não precisa gritar, André. respondeu o garoto roliço que atendia por Lucas.

Não temos mais bola e nem mesada pra comprar outra e agora? replicou o pequeno menino, já com lágrimas brotando de seus olhos.

Rita não se conteve, quando viu já estava próxima dos jogadores.

Querem que eu entre e busque a bola? questionou com tom apaziguador.

Tia, não pode. Esse bosque é esquisito e perigoso. Lucas falou assustado.

Não liga pra ele tia, nossas mães que nos proibiram de entrar lá, mas eu ficaria agradecido o menino menor disse, secando o rosto com as costas da mão e dando uma piscadinha.

A confeiteira adentrou o lugar em busca da bola. Apesar de ser um bosque dentro de um parque e no centro da cidade, suas árvores eram tão densas que poucos raios de sol conseguiam penetrá-las, isso causou um calafrio na mulher.

Seguiu firme em direção ao seu propósito de encontrar a bola, não deixaria as crianças tristes. Andou por vários minutos e estranhou quando sentiu a tarde cair, não era possível que estivesse tanto tempo à procura do objeto.

A mulher decidiu voltar, porém não encontrou a saída em meio às árvores, a noite caiu e ela ficou com medo. Não adiantaria tentar achar a saída no escuro, em seu íntimo torceu para que alguém viesse lhe procurar.

Tateou as árvores em busca de abrigo, encontrou uma que tinha a cavidade exata para o seu tamanho e entrou. 

Rita sentiu que o ar que lhe faltava, relaxou seu corpo esperando o descanso sonhado e dormiu.

Ao acordar, respirou aliviada, já era dia novamente. saiu do tronco da árvore, e com a luz da aurora identificou a bola, um pouco murcha, porém ainda intacta. Talvez tivesse furado, nada que um remendo não ajudasse. 

Seguiu a luz do sol, a sensação pelo corpo era estranha. Esperava que as crianças tivessem retornado com o amanhecer.

Desta vez conseguiu localizar a saída, e saindo, percebeu que estava do lado errado, tinha saído do lado próximo ao prédio em que o marido trabalhava. 

Um senhor muito idoso veio correndo em sua direção.

Não é possível, Rita? perguntou o homem com olhos marejados e caindo de joelhos em sua frente.

Sim, sou eu. Te conheço? ela dizia já segurando o homem pelos cotovelos para que ele se levantasse.

Rita, sou eu Jorge. Seu marido. a tensão nessas palavras fizeram a mulher acreditar.

Ficaram os dois no silêncio causado pelo choque, ele então, apontou um banco para que se sentassem.

Achei que tivesse morrido o esposo prosseguiu  faz 35 anos hoje, que você adentrou o bosque e nunca mais foi vista. Nossos filhos seguiram a vida, eu que fiquei sempre com a esperança de te rever. 

Mas como assim? Ninguém foi me procurar? a confeiteira recobrara as palavras.

Somente eu e um oficial tivemos coragem de entrar. Mesmo assim não vimos nada, depois de uma semana fomos proibidos de retornar. 

Rita ficou de pé, deu um beijo no esposo e caminhou para o lado da sua casa.

Espere, aonde você vai? 

Viver, eu já descansei demais…



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