Esse texto é a resposta do Desafio de escrita que está no ar lá no Instagram do Clube dos 7.
Todos os dias eram assim. Rita seguia às seis da manhã para o emprego na confeitaria da Bel. Era uma confeiteira de mãos cheias, organizada, dedicada e muito prestativa.
Trabalhava quase o dia todo em pé, chegava em casa cuidava das tarefas, jantar e higiene dos filhos. Com eles já dormindo, limpava a casa, lavava as roupas e ainda estudava novas receitas.
Depois, passava com cuidado as camisas do marido que de manhã levaria as crianças para escola e seguiria para o seu trabalho, na portaria de um prédio próximo ao estabelecimento que ela trabalhava
Todos no bairro tinham grande admiração por essa mulher, ela porém, todas as noites repetia a mesma frase:
— Deveria quebrar uma perna para ter um pouco de descanso.
O seu trabalho ficava ao lado de um parque que tinha um denso bosque. As crianças jogavam bola o dia todo na parte de grama.
Rita em seus breves minutos de pausa, ficava admirando os pequenos com a sua vivacidade. Brincavam como se não houvesse amanhã, não se preocupavam com nada.
Naquele dia em específico, Rita foi despertada da sua observação com um grito.
— Lucasssss não, de novo não. Porque você sempre perde a bola no bosque. — quem gritava era um menino mirrado com ar nervosinho.
— Calma, não precisa gritar, André.— respondeu o garoto roliço que atendia por Lucas.
—Não temos mais bola e nem mesada pra comprar outra e agora? —replicou o pequeno menino, já com lágrimas brotando de seus olhos.
Rita não se conteve, quando viu já estava próxima dos jogadores.
—Querem que eu entre e busque a bola? —questionou com tom apaziguador.
—Tia, não pode. Esse bosque é esquisito e perigoso. —Lucas falou assustado.
—Não liga pra ele tia, nossas mães que nos proibiram de entrar lá, mas eu ficaria agradecido — o menino menor disse, secando o rosto com as costas da mão e dando uma piscadinha.
A confeiteira adentrou o lugar em busca da bola. Apesar de ser um bosque dentro de um parque e no centro da cidade, suas árvores eram tão densas que poucos raios de sol conseguiam penetrá-las, isso causou um calafrio na mulher.
Seguiu firme em direção ao seu propósito de encontrar a bola, não deixaria as crianças tristes. Andou por vários minutos e estranhou quando sentiu a tarde cair, não era possível que estivesse tanto tempo à procura do objeto.
A mulher decidiu voltar, porém não encontrou a saída em meio às árvores, a noite caiu e ela ficou com medo. Não adiantaria tentar achar a saída no escuro, em seu íntimo torceu para que alguém viesse lhe procurar.
Tateou as árvores em busca de abrigo, encontrou uma que tinha a cavidade exata para o seu tamanho e entrou.
Rita sentiu que o ar que lhe faltava, relaxou seu corpo esperando o descanso sonhado e dormiu.
Ao acordar, respirou aliviada, já era dia novamente. saiu do tronco da árvore, e com a luz da aurora identificou a bola, um pouco murcha, porém ainda intacta. Talvez tivesse furado, nada que um remendo não ajudasse.
Seguiu a luz do sol, a sensação pelo corpo era estranha. Esperava que as crianças tivessem retornado com o amanhecer.
Desta vez conseguiu localizar a saída, e saindo, percebeu que estava do lado errado, tinha saído do lado próximo ao prédio em que o marido trabalhava.
Um senhor muito idoso veio correndo em sua direção.
—Não é possível, Rita? —perguntou o homem com olhos marejados e caindo de joelhos em sua frente.
— Sim, sou eu. Te conheço? — ela dizia já segurando o homem pelos cotovelos para que ele se levantasse.
— Rita, sou eu Jorge. Seu marido. —a tensão nessas palavras fizeram a mulher acreditar.
Ficaram os dois no silêncio causado pelo choque, ele então, apontou um banco para que se sentassem.
—Achei que tivesse morrido — o esposo prosseguiu — faz 35 anos hoje, que você adentrou o bosque e nunca mais foi vista. Nossos filhos seguiram a vida, eu que fiquei sempre com a esperança de te rever.
— Mas como assim? Ninguém foi me procurar?— a confeiteira recobrara as palavras.
— Somente eu e um oficial tivemos coragem de entrar. Mesmo assim não vimos nada, depois de uma semana fomos proibidos de retornar.
Rita ficou de pé, deu um beijo no esposo e caminhou para o lado da sua casa.
—Espere, aonde você vai?
— Viver, eu já descansei demais…

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