Assassinatos em Whitechapel
Londres, 31 de Agosto de 1888
Vestiu as roupas do falecido marido e saiu pela madrugada.
Rose andou pelas ruas de Londres até chegar em Whitechapel. Percorreu as ruelas, o instinto guiando seus passos, parou em um beco perto de uma pensão. Não sabia se a reconheceria imediatamente, vira-a apenas de relance.
Percebeu que cambaleava, segurando pelas paredes, tentando não cair. Chamou-a e enquanto ela vinha em sua direção, hesitou por um minuto. Ainda poderia desistir.
— Venha cá, benzinho — a voz trôpega da moça varreu para longe qualquer dúvida. — Sei do que você precisa para dormir bem.
Puxou-a para o beco e com dois cortes em sua garganta, viu a vida esvaindo com o sangue que manchou a calçada. Olhou para as janelas e portas do prédio em que se recostava e em nenhuma viu movimento. Sentiu a fúria dominar sua mão quando cortou seu abdômen várias vezes sem cuidado. Após alguns minutos a lucidez voltou e, controlando-se, deixou-a jogada no chão.
Voltou para seu lar e banhou-se. Estava satisfeita. Tinha se vingado daquela destruidora de lares. Nenhum casamento seria mais ameaçado por ela. Lavou as roupas e colocou-as para secar. Esvaziou a água vermelha da tina e deitou-se, dormindo em seguida.
Na tarde seguinte, indo ao verdureiro ouviu um burburinho.
— Bom dia, senhora Rose Wyllet. Soube do que houve nessa madrugada? — Indagou a esposa do vendedor, quando a viu.
— Bom dia Mary. Não soube ainda — respondeu enquanto pagava suas compras. — Por favor, diga-me o que pode ter acontecido que a deixou tão assustada assim?
— Um assassinato, a duas quadras daqui — cochichou a senhora, inclinando-se. — uma dessas moças de vida fácil. Mary Ann Nichols. Não sei se já a vistes por aí?
— Não tenho conhecimento dessas mulheres. Foi uma briga, decerto?
— Eu não sei dizer. Foram dois cortes na garganta e vários na barriga. Muita violência — benzeu-se a esposa do verdureiro. Era uma irlandesa e, portanto, católica, assim como Rose. — Pagou pelos pecados.
— Tenho certeza de que sim — despediu-se da amiga e voltou para o lar.
Remoeu a informação. Mary Ann fora a amante de seu marido. No dia de sua morte descobriu que ele a visitava duas vezes na semana nos últimos cinco anos. Fora ela quem destruíra suas ilusões de um casamento perfeito. Agora sentia-se vingada e o ódio se aplainou.
Durante uma semana a dor do luto consumiu Rose. Ia diariamente à missa e depois ao túmulo de Robert, o homem que jurou amar e respeitar há vinte anos e a quem dedicou devoção e toda juventude. Uma quinzena se passou desde que enviuvara e não sabia o que fazer de sua vida. Vivera para seu marido e a caridade. Naquele dia sentiu a raiva e o ódio borbulhando pelo sangue. Mais uma vez precisava extravasar.
Vestiu as calças do senhor Myllet e vagueou pelas ruelas. Estava cega pelo desejo de vingança que a morte de Mary Ann não saciou. Procurou o bordel mais próximo e enfiou-se em um beco ao lado. Esperou por duas horas até que uma moça aparecesse. Ela andava, lânguida, suas roupas sugeriam os prazeres que proporcionaria aos homens que a procurassem. Olhava para os cantos, à procura de algum potencial cliente. E avistou o rapaz recostado à esquina, um chapéu cobrindo o rosto. Caminhou ondulante até ele. A noite prometia.
Rose a viu e ajustou o chapéu. Ela vinha insinuante em sua direção. Deu dois passos para trás, deixando a sombra encobrir suas feições. Não havia hesitação, apenas a certeza de como agir. A rapariga seguia-a beco adentro. Deu mais alguns passos vagarosos, até ser alcançada por mãos salientes.
Quando a mão desta não encontrou o que procurava no meio das calças, Rose enfiou a lâmina do punhal em seu pescoço leitoso, fazendo borbulhar o líquido vermelho. O segundo corte veio para garantir que a vida iria embora. Deitou-a na calçada mal iluminada pelo lampião, e abriu a barriga da moça. Procurava por algo. Encontrou o útero, removeu, colocou em uma bolsa.
Foi-se embora, flutuante. Com certeza agora sua vingança estava completa. Ao chegar no seu quarto, limpou-se e jogou fora todo resquício do seu ato da madrugada.
Após dois dias, ao perceber que Robert não voltava para casa, indignou-se. Foi procurar por ele na clínica onde atendia aos doentes.
— Senhora, o doutor Myllet faleceu há quinze dias — informou-lhe o antigo secretário do marido, olhando-a preocupado. —A senhora está bem? Quer se consultar com o novo médico?
Dispensando o oferecimento, dirigiu-se para o parque, sentou-se no banquinho, contemplando os patos que nadavam no lago. Suspirou, tentando desembaralhar a mente. Tinha esquecido que Robert falecera. Algumas vezes essa informação sumia da lembrança.
Três semanas se passaram, nas quais a sede de retaliação de Rose saciara-se. Ao fim deste tempo, porém, ao ver uma corista passar em sua frente com o marido de uma antiga paciente de seu esposo, sentiu ânsias vingativas fluindo por suas veias.
Desta vez teve mais sorte. Sem demora encontrou a outra pecadora, indo para um bordel. Atraiu a atenção dela com um assovio e gesticulou, chamando-a. A meretriz foi caçar o cliente que aparentava ter muito dinheiro. De longe Elizabeth Stride percebeu a fineza das roupas do moço, e,embora o achasse um pouco baixo, não estava em condições de rejeitar ninguém.
Rose, segurando o punhal atrás das costas, evitando a luz do lampião, esperou que a rapariga chegasse até ela. Célere, cortou duas vezes a garganta dela. No entanto, um barulho vindo da rua ao lado assustou-a. Ouviu vozes vindo em direção a elas. Largou o corpo e fugiu apressada pelo beco. Correu por duas ruelas, quase desistindo. Contudo deu em frente a uma outra casa onde poderia encontrar a próxima vítima. Escondeu-se na esquina e esperou. A sorte, que parecia tê-la abandonado, sorriu-lhe outra vez quando não precisou aguardar muito.
Catharine Eddowes saíra há pouco da casa de seu cliente mais fervoroso. Era carinhoso, mas não tão bom pagador. Andando pela rua, quase chegando na casa onde trabalhava. Imaginava como faria para pagar pela noite então avistou um rapaz bem-vestido recostado na esquina da casa. Ele acenou para a moça. Ótimo. Um cliente rico garantiria uma semana na pensão. Desviou da entrada e foi até o rapaz, sorridente, insinuando com os passos o prazer que lhe daria. Dobrou a esquina e procurou a carruagem que com certeza ele teria. Ao invés do veículo recebeu um corte profundo no pescoço. Quis gritar, mas apenas sangue saiu de sua boca, aos borbotões. O segundo corte apagou a luz de seus olhos.
Rose perfurou o rosto da moça algumas vezes, no auge da raiva. Cortou o abdômen e retirou o útero e depois os rins. Descartou o corpo de qualquer jeito e fugiu apressada, carregando sua preciosa carga. Em casa fez o procedimento de limpeza de forma autônoma. Conservando os órgãos no álcool, deitou-se na cama. A certeza de estar purificando o mundo fez com que dormisse como um anjo.
Gordon Smith, o secretário do doutor Robert veio visitá-la no dia seguinte, pressuroso.
— Bom dia senhora — cumprimentou-a na porta. — Como se sente hoje?
— Estou bem, senhor. Não o chamo para entrar pois moro sozinha e não é de bom tom um homem entrar na minha casa quando não tenho ninguém aqui.
— Tudo bem. Só estava preocupado devido ao seu estado naquele dia quando foi na clínica — ele examinava-a para ver se percebia sinal de insanidade nela, mas nada denunciava desequilíbrio. — Passarei aqui sempre que puder para te visitar.
— Agradeço a preocupação. Já me encontro conformada com o falecimento de meu esposo — dispensou-o e voltou para o planejamento da próxima expurgação.
Demorou quase quarenta dias para ouvir a missão chamando. Esperou mais uma vez pela madrugada e saiu à caça. Não vacilou. Foi até a casa de uma meretriz que era famosa nas ruas. Ela seria diferente, pois dormia em um quarto alugado e não precisaria arriscar-se pelas ruas. Mary Jane Kelly era irlandesa, sua compatriota, com apenas vinte e cinco anos.
— Mary Jane, sou a viúva do doutor Myllet. Posso entrar? — ela batia na porta da casa da moça em questão. Resolvera não fingir dessa vez.
— Olá senhora, como vai? Eu sinto muito pela sua perda.
Ao entrar, Rose iniciou sua missão, aproveitou enquanto a moça se virava para fechar a porta e usou o punhal na garganta dela. Sem se controlar, cortou até atingir o fundo. Jogou-a na cama e começou a trabalhar em seu rosto, com serenidade cortou cada pedaço do rosto e do peito.
Sem pressa e sem risco de ser interrompida, ela retirou cada órgão e espalhou pelo quarto. Retirou o coração e colocou num frasco com conservante. Não se interessou dessa vez em levar o útero. Tirou sua roupa com calma, jogou na bolsa e vestiu-se com outra limpa e saiu caminhando tranquila, fechando a porta atrás de si. O sol nascia naquele momento. Ela foi embora com toda a satisfação de ter atingido seu intento. Puniu mais uma pecadora com o castigo que merecia.
Chegou em sua casa e se acalmou. Benzeu-se com o terço e rezou com fervor, agradecendo pela bem sucedida missão. Marcou no calendário o dia importante. Estava realizada, a exultação durou um pouco mais de um mês. Naquele dia vinte de dezembro, pegou o jornal para ler. As mortes que provieram do castigo que impôs contra as hereges estavam espalhadas uma ao lado da outra. A foto de Mary Jane estava em destaque. Chamavam o expurgo de assassinatos e diziam que um tal de Jack, o estripador quem limpava o mundo das impuras. Riu-se da besteira. Somente uma mulher poderia purificar Londres das meretrizes que sujavam as ruas com o pecado. Os homens eram enganados pelas rameiras. Somente ela tinha recebido a santa missão. Ler aquelas notícias fez seu sangue ferver por castigar outra destruidora de lares. Sentiu que no Natal deveria ter mais uma ou duas raparigas castigadas. Vestiu-se com as vestes que pegara do quarto da cortesã. Não queria arriscar a pele pelas ruas outra vez. A experiência com a última tinha sido satisfatória e acreditava que seria melhor assim.
A madrugada veio saudá-la à espreita em uma das ruelas em Whitechapel. Passeou à procura de alguma moça que tivesse o próprio quarto. Em uma das voltas que deu avistou o quintal onde uma meretriz tinha acabado de entrar acompanhada. Esperaria o rapaz sair. Pulou a cerca, mas neste momento o lenço que usava no pescoço ficou preso na cerca e ela ficou pendurada sem conseguir soltar-se. Contorceu-se, sentiu que o ar faltava, os olhos pareciam querer sair de órbita. As vistas foram escurecendo e seu último pensamento foi Robert.
